Pular para o conteúdo principal

Fundamentos da Teoria prática

Considero o escrever um exercício de liberdade e paixão. A liberdade de refletir criticamente sobre minha prática, minha igreja, minha escola, enfim o mundo em que vivo, e a paixão de servir a Deus e edificar a igreja, na ardente expectativa do Reino de Deus.
 
Vivemos em um tempo paradoxal: nunca tantas novidades geraram tanta mesmice! O consumismo da pós-modernidade cria e destrói seus produtos com imensa velocidade. Tudo tem prazo de validade efêmero. Quantos meses dura um corinho? Quantos anos dura um modelo de igreja? Quantos livros de liderança cristã ainda terão de ser escritos para aprendermos a liderar?

Nunca houve tantos livros de teologia publicados no Brasil. Livros de todos os tipos, de todas as tendências e épocas, e apesar de tamanha diversidade, porém, a imensa maioria é muito semelhante, já que não propõe formas diferentes de fazer teologia. Ficamos acostumados a pensar nela a partir das grandes divisões disciplinares que se formaram na Modernidade: teologia bíblica, teologia histórica, teologia sistemática e teologia prática.
Cada uma dessas divisões apresenta suas regras, sua metodologia, seus objetivos e sua história.
Em ambientes de formação teológica, quando se menciona a palavra “teologia” sem adjetivos, quase sempre se pensa em teologia sistemática, e logo se revivem nomes como Berkhof, Barth, Tillich, Erickson e outros. Vem-nos à mente a imagem de pesados livros que discutem os grandes temas doutrinários cristãos: Deus, Trindade, revelação, criação, pecado, redenção, igreja, escatologia, cristologia, pneumatologia etc. Para vários pastores e pastoras, outra lembrança não tão agradável também se manifesta: a do exame de ordenação.
Depois de muito tempo de domínio quase absoluto, a teologia sistemática passou a ser desafiada pela teologia bíblica. Qual delas teria o direito de ostentar o título de rainha das ciências teológicas? Será que a teologia sistemática, por ser sistemática, não é bíblica? Até que ponto a teologia bíblica é efetivamente bíblica (fiel às Escrituras)? Um nome não garante a qualidade da reflexão, afinal, várias obras de teologia bíblica não foram aceitas com entusiasmo pelas igrejas. 
De uma forma ou de outra, porém, para muitas pessoas teologia bíblica e sistemática apresentam algo em comum: ocupam-se de conceitos, sistemas, noções abstratas que pouco ou nada têm que acrescentar à vida cotidiana das pessoas e comunidades cristãs. Embora esse juízo não seja de todo correto, transita livremente em vários círculos acadêmicos e em especial nos eclesiais.
Em síntese: quando se pensa em teologia, a maioria das pessoas lembra de teorias pouco interessantes e relevantes para os desafios da vida cristã e da prática ministerial. A própria teologia prática, em muitos casos, não tem passado de uma tecnologia, de uma teologia aplicada, que acaba não sendo nem teologia, nem prática — de acordo com as noções mais comuns desses dois termos. 
Em ambientes acadêmicos, a teologia prática tende a ser relegada a segundo plano por ser pouco teológica, e em ambientes eclesiais tende a ser desconsiderada por ser teológica demais. A maior parte dos livros de teologia recém-publicados pode ser facilmente classificada numa dessas fronteiras disciplinares.
Essas breves considerações sobre a mesmice da novidade e sobre os diferentes prestígios da teologia no dia-a-dia eclesial e acadêmico evangélico visam a ajudar-me a explicar um pouco a natureza desta obra. Embora se trate de um livro sobre teologia prática, a base argumentativa é a carta de Paulo aos colossenses, a temática segue a terminologia da teologia sistemática e o conteúdo não oferece modelos nem receitas para a prática. Você poderia pensar então: “Afinal, de que tipo de teologia trata este livro?”.
Reafirmo o título: trata-se de um livro de teologia prática. No entanto, ele considera os limites da modernidade e tira proveito das possibilidades que a chamada pós-modernidade oferece, transgredindo as fronteiras disciplinares convencionais do saber teológico com liberdade e paixão.
Certamente este não é o primeiro livro de teologia que transgride fronteiras disciplinares. Quem está acostumado à leitura teológica se lembrará de imediato de autoras e autores recentes — como J. Moltmann, J. Cone, L. Boff, Sallie McFague. De fato, há um amplo reconhecimento de que as fronteiras disciplinares criadas na modernidade estão desgastadas e precisam ser superadas. 
Do reconhecimento à ação, entretanto, há uma longa distância a percorrer. Pense, por exemplo, no currículo de seminários e faculdades de teologia. Você se localiza facilmente nos departamentos de Bíblia, Teologia Sistemática e História, Teologia Prática e Ciências de Apoio ou Análise da Realidade.
Ao pensar em fazer mestrado ou doutorado em teologia, imediatamente essas áreas do saber teológico lhe serão oferecidas. A questão é: como reorganizar o currículo teológico de modo a transgredir essas fronteiras sem comprometer o reconhecimento do curso de teologia como tal? Toda organização de ensino teológico baseia-se nessa categorização disciplinar. Se a transgredimos, que fazer? Como serão os cursos de teologia?
Pense, também, em seu ministério eclesial ou missionário. Como conceber-lhe a identidade ministerial se essas fronteiras disciplinares deixarem de ser reconhecidas como a única forma possível de organizar a atividade teológica e ministerial? Será que as palavras “pastor”, “missionário” e “educador” continuarão a representar com clareza seu significado? 
Nas entrelinhas deste livro, por exemplo, proponho que toda pessoa que serve a Deus liderando a igreja através de ministérios “ordenados” (ou, se não “ordenados”, reconhecidos e estruturados nas instituições eclesiásticas), se considere, mais que ministra ou ministro, teóloga prática e teólogo prático. Que diferença fará essa nova visão de si em sua atividade ministerial e em sua auto-imagem? Se, em vez de “pastor(a)”, você se apresentar como “teólogo(a) prático(a)”, como as pessoas e a comunidade eclesial reagirão?
Proponho nas entrelinhas porque, afinal, mudanças dessa envergadura não dependem apenas da vontade de uma pessoa, por mais que essa intenção tenha sólida base teórica e relevância utópica para a igreja. Proponho apenas nas entrelinhas porque creio que mais importante que a aceitação teórica dessa possível mudança, é o reconhecimento da prática teológica como atividade devocional e ministerial relevante. Ela é tão necessária quanto qualquer tarefa ministerial e disciplina espiritual que nos dispusermos a definir ou reconhecer como prioritárias.
Teologia prática nasce da prática teológica. E esta indica, aqui, todo e qualquer serviço que, como líderes do povo de Deus, realizamos para a glória de Deus, a expansão do Reino, o crescimento da igreja e a edificação do Corpo de Cristo. Faço questão de destacar o adjetivo da expressão “prática teológica”. Encontramos mais comumente as expressões “prática ministerial”, “prática missionária”, “prática de liderança” ou, talvez a forma mais comum, simplesmente “prática”.
Pessoas práticas são pessoas eficazes, que não se perdem em teorias, nem gastam tempo com reflexões inúteis e muito menos com lucubrações estratosféricas. Pessoas práticas não são pessoas teológicas, nem pessoas teóricas. Quem é prático, faz. Quem é teórico, pensa. Tais concepções não poderiam estar mais distantes do que este livro se dispõe a apresentar. Prática irrefletida tem pouquíssima eficácia. Teoria bem formulada é extremamente prática.
Para ser bem formulada, no entanto, a teoria deve nascer da prática. Essa é uma das razões por que optei por alicerçar estes fundamentos da teologia prática na carta aos colossenses. Todas as epístolas de Paulo são eminentemente teológicas. Trata-se de um conjunto de teoria na melhor acepção dessa palavra. São ótimas teorias teológicas porque nascem da prática paulina e da prática das igrejas paulinas, mas não se esgotam nela. Germinam da prática e vão crescendo, amadurecendo, florescendo. Tornam-se, então, prática refletida, conceitos, imagens, metáforas teológicas. Ao frutificar, delas colhemos mais e melhores práticas.
Fazer teologia prática é refletir criticamente sobre a teologia que praticamos em nosso contexto. Na linguagem bíblica, é exercer sabedoria e discernimento. A reflexão teológica, porém, embora surja da prática, não se alimenta dela. Seu alimento é teórico. Trata-se de discursos outros sobre a prática. 
Para nós, evangélicos, a principal fonte teórica da teologia é a Escritura, a Palavra de Deus. Podemos encontrar obra mais teológico-prática? Na Bíblia a espiral teoria-prática-teoria-prática é exemplificada livro após livro, período histórico após período histórico, situação de vida após situação de vida. 
Lembremo-nos dos profetas e das profetisas do antigo Israel, cujas histórias e cujos livros encontramos no Antigo Testamento. Eles fizeram teologia prática a partir da vivência com o povo de Deus, refletiram com sabedoria e discernimento para encontrar a vontade e o julgamento divinos sobre a realidade, e os anunciaram. Seus livros são exemplos de teologia prática, e suas vidas, de teólogos e teólogas práticas.
Pense em Jesus, o Messias. Sua prática teológica é fonte inesgotável de novas práticas e teorizações teológicas. Quanta compaixão motivou suas ações. Quanta reflexão para agir dessa maneira. Imagine se Jesus, em vez de refletir teologicamente, apenas imitasse a teologia já pronta das lideranças judaicas de seu tempo. Entre muitas outras conseqüências, eu e você não seríamos cristãos e a igreja não existiria. 
Jesus foi o pastor, o mestre, o teólogo por excelência. Sem escrever nenhum livro, fez teologia — e excelente teologia. Não escreveu em pergaminho, mas escreveu em corações e mentes de pessoas concretas. Algumas das quais, mais tarde, escreveram muitos livros.
Por isso, neste livro, exercitamos nossa compreensão da teologia prática ao construir, a partir de Colossenses 1:15-20, uma cristologia prática, refletindo sobre a supremacia de Jesus Cristo. Em seguida, a partir de Colossenses 2:6-15, ponderamos sobre a salvação ofertada por Deus, em Cristo, e concretizada na criação pelo Espírito Santo. 
Ao refletir sobre a espiritualidade cristã, desenvolvemos o tema da espiritualidade cristocêntrica, com base no texto de Colossenses 2:16—3:, e da espiritualidade solidária, fundamentada em Colossenses 3:5-17.
Finalizamos nossa breve caminhada teológica com Paulo e os colossenses refletindo sobre a missão integral da igreja, conforme experimentada pelo apóstolo e seus companheiros de ministério. Ao fazê-lo, retornamos ao ponto de partida de toda reflexão teológica: oração e adoração. Só fazemos e pensamos missão porque Deus nos amou e entregou-se por nós: o mistério da graça que nos alcança e eleva até a filiação divina, à irmandade com Jesus, o Messias, o ungido pelo Espírito. 
Fundamentos da teologia prática é, portanto, um convite. Um convite à transgressão. Transgressão segundo o exemplo de Cristo, que por fidelidade ao Pai e amor à humanidade não deixou de quebrar as leis de seu tempo e de sua religião. 
É um convite à liberdade. Liberdade segundo o exemplo de Cristo, que a exerceu amorosa e utopicamente, entregando a própria vida para que uma nova humanidade pudesse ser criada por Deus. Liberdade que, alimentada pela paixão pelo Reino de Deus, atravessa fronteiras construídas por nós mesmos ao logo da história, vence tabus e propõe novas formas de viver. Fazer teologia é exercitar essa liberdade em meio a tantas determinações estruturais, marqueteiras e mercadológicas. 
É um convite para que você escreva a teologia prática que este livro meramente introduz, sonha, imagina. Que você escreva teologia na forma de outros livros, de canções, de poesias, de novos ministérios, novas organizações cristãs, novas formas de relacionamento, novos modelos de espiritualidade. Que você escreva teologia com novas palavras e novas ações, novos formatos e novas formas de expressão. Que você seja a própria teologia em ação.


Autor - Júlio Zabatiero

Fundamentos da Teoria prática - Editora Mundo Cristão


Comentários

  1. O SÉTIMO DIA
    (DN.4.2) Pareceu-me bem fazer conhecidos os sinais e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo,; (EF.2.7) para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça em bondade para conosco em Cristo Jesus; (1CO.15.45) pois assim está escrito:
    (GN.2.3) – E ABENÇOOU DEUS O DIA SÉTIMO, E O SANTIFICOU; PORQUE NELE DESCANSOU DE TODA A OBRA QUE, COMO CRIADOR, FIZERA: (AR.85.6)
    E o que o Senhor quer dizer com as 85 letras e 6 sinais acima é isto:
    SOU O ESPÍRITO QUE DESCEU DO CÉU, CRIANDO A SUA FÉ; E FAÇO SANTO O QUE É BATIZADO COM NOME DE ARNALDO RIBEIRO: (IL.85.6)
    (Lc.12.50 – Tenho, porém, um batismo com o qual hei de ser batizado; e quanto me angustio até que o mesmo se realize; (IS.21.16) porque assim me disse o Senhor: (1RS.18.31) Israel será o teu nome, (LS..9.6) porque ainda que algum seja consumado entre os filhos dos homens, se estiver ausente dele a tua sabedoria, será reputado como nada.(LC.4.21) Hoje se cumpriu a escritura que acabais de ouvir: (LC.6.5) O Filho do Homem é Senhor do sábado:
    E agora José? Ou melhor, Chico?...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Total de visualizações